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Sítio do Sergio Leo
Sergio Leo


29/10/2004 16:47
Queda do Fidel
Coquetéis diplomáticos são, em geral, aborrecidos. Mas têm pessoas inteligentes, amantes de arte, de música, entenedidos (sem duplo sentido, por favor) em literatura; algumas vezes rendem notícia, algumas até alegram o espírito. No de ontem á noite, no Itamaraty, depois de um concerto de piano e violino, foram mal-sucedidas as tentativas de arrancar do Marco Aurélio Garcia e do ministro Celso Amorim a estratégia brasileira para evitar que o crescente protecionismo argentino azede a próxima reunião do Mercosul.


Imagino que os convidados saíram com fome (ah, esses salgadinhos de licitação do Itamaraty!). De saldo, uma historinha, contada pelo embaixador de Portugal ao Marco Aurélio. Disse ele que, ao visitar Cuba com o primeiro-ministro português, procurou o arcebispo, John Favalora, creio, e propuseram, ao religioso, promover com a Igreja Católica uma campanha mundial por eleições gerais em Cuba, com acompanhamento de árbitros independentes. Garante o embaixador que o arcebispo implorou: "não façam isso, pelo amor de Deus! Vocês legitimariam esse homem!" Esse homem, Fidel Castro, está com joelho quebrado e o braço fraturado com o tombo que levou, mas continua o velho demônio. Não está como o Arafat, que, nas fotos do jornal de hoje, parece um pobre diabo.
Sergio Leo | :(0)



29/10/2004 16:59
Aviso aos navegantes
Aos meus dez (!!) leitores (cálculo da Marta, já contabiliza a simpática didizinha aí nos comentários), confesso que usei, por anos, na vogal errada, o acento do presente do Indicativo da primeira pessoa do plural, em verbos como ver (vêem), ou ler (lêem). Fui flagrado pelo corretor do Word. Era o pior erro ortográfico que jamais cometi. E agora que não o faço mais, acabam de aprovar uma reforma, para unificação da língua portuguesa escrita entre Brasil, Portugal e África, que vai dar fim no dito acento.






Mas me apavora mesmo a minha péssima datilografia, combinada com o teclado anglo-saxão que usamos. Como sabem oito de vocês, meus dez leitores, o teclado tem essa distribuição de letras para evitar que, nas antigas máquinas de escrever, se enganchassem as teclinhas que imprimiam as letras no papel. Hoje poderiam estar arrumadinhas segundo a ordem alfabética, mas, o que fazer com os datilógrafos ou cata-milhos já acostumados com as letras onde estão? Uma parada num café Internet na França, onde a arrumação do teclado está mais de acordo com as linguas latinas, é suficiente para mostrar o pesadelo que seria mudarem as teclas de lugar.






Ainda assim, gostaria sinceramente de fazer umas trocas, para evitar que a péssima datilografia comprometa severamente minha respeitabilidade literária. Tudo porque o saxão autor da disposição das teclas alinhou, lado a lado, o X, o C, o Z e o S. Cinseramente, dá para ver como essa arrumação ezótica pode levar a erros terríveis, por um excorregão de dedos? Nas colunas do jornal, algumas vesez excaparam coizas assin (ah, tem o m e o n tanben).






Crus credo.


Sergio Leo | :(6)



28/10/2004 13:28
Privacidade na privada
Recusei um convite para entrar no Orkut, esse enorme cadastro virtual, mistura de rede de contatos e correio elegante, no qual só se entra chamado por algum amigo. A amiga que me convidou ficou chateada quando expliquei ter medo desse tipo de coisa, mais um passo para a perda voluntária de privacidade dos cidadãos, ao lado de blogues e fotologues e webcams e ferramentas de busca. O Grande Irmão será construído por nós, diz o paranóico que habita uma enorme porção de meu cérebro deteriorado. E não serei eu quem vai facilitar esse trabalho.


Não sei muito bem a razão da paranóia, algum bem ela deve fazer. Até hoje, pelo menos, me fez economizar dinheiro com psicanalista (sou tão paranóico que jamais contaria nada ao analista, por medo de que ele usasse contra mim as informações que eu desse; e sou megalomaníaco a ponto de achar possível que ele tivesse algum interesse, ou vantagem, em fazer isso).





É incrível a ilusão das novas _ e de alguns integrantes das velhas _ gerações em relação ao ambiente da Internet. Suspeitava que muito autor de confissões em blogues acredita mesmo estar protegido de olhares indiscretos, ou de interesses escusos. Tive certeza ao ver que Anita chocou-se com a reportagem da mãe, sobre o blog mantido por parentes do Lula, com todas as fotos sobre a intimidade da família presidencial que Dona Marisa sempre proibiu os fotógrafos profissionais de fazer. Algumas pessoas fazem revelações na rede mundial de computadores e agem como se estivessem escrevendo seu diário na mesinha de cabeceira. Caso patológico e paradoxal de exibicionismo tímido. Ilusão sobre o alcance e conseqüências do que se escreve na Internet. É como se alguém achasse possível aproveitar o auge de uma sinfonia do Stravinski para gritar no meio de uma sala de concerto e ser ouvido apenas pela linda violinista da terceira fila.



Sergio Leo | :(2)



27/10/2004 11:50
Enchendo lingüiça

Era como minha mãe chamava aquelas cenas de novela em que os autores da Globo tentavam dar vazão aos seus sonhos de nouvelle vague; ou enchiam lingüiça mesmo.









Vinicius Dória trouxe nova tese à redação: a polêmica foto que ninguém sabe se é mesmo de Vladimir Herozg ou de um padre canadense não é nem de um nem de outro. É um still, um flagrante de intervalo entre-cenas, roubado do filme "O Homem Nú", baseado na obra do Sabino. Fui checar e é mesmo. O sujeito é a cara (coberta), a careca do Cláudio Marzo.









Jantar, ontem em um simpático restaurante do Lago Sul, o Cielo (que, pela pronúncia italiana, eu imaginava Cello, dando feição musical ao que era celestial). J e V conosco, um casal sério. Muito sério. Na verdade V e J são caretas. Muito caretas. Pessoas maravilhosas. E J. conta o dia em que teve uma reunião em sua multinacional, começada às nove da manhã. Deixou marido (V.) e filhos em casa. V. volta do jornal em que trabalha, espera até meia noite, nada; espera mais. Às duas liga para J. e ela diz não ter hora para voltar. J. chegou em casa às seis horas da manhã, e conta para a gente: "explicar para o marido não foi nada; duro foi enfrentar a cara de reprovação da empregada".















Sergio Leo | :(0)



25/10/2004 12:30
Lições para o Mercosul
É uma associação difícil, com parceiros de diferentes níveis de desenvolvimento, que criam muitas normas de aplicação frouxa e descumprem obrigações quando os governos consideram muito alto o custo das decisões tomadas com os outros países do bloco. Não, não é o Mercosul.

Essa é a atual União Européia, na apresentação do diretor do Instituto Europeu de Pesquisas, Anand Menon, professor de Política Européia da Universidade de Birmingham, em um discreto seminário promovido pela Cepal e pela Embaixada Britânica, semana passada, em São Paulo. Tema do encontro: experiências de integração regional. Debate importante às vésperas da reunião presidencial do Mercosul, em que o tema do aprofundamento da integração deve causar, no mínimo, constrangimentos.

O seminário reuniu especialistas, a portas fechadas, para debater as experiências comunitárias da União Européia e da Comunidade Andina, os ajustes necessários na legislação dos países, a importância das chamadas instituições supra-nacionais (como a Comissão Européia, com poderes sobre os Estados-membros) e as estratégias para os mercados de trabalho e sistemas de previdência entre os sócios. Palestras e conclusões dos especialistas convidados podem ser lidos no site www.cepal.org.br.

Uma das principais conclusões foi a de que os processos de integração regional, para sobreviver, devem cumprir três condições: a população tem de perceber algum ganho com a associação aos outros países; é preciso um sistema legítimo e eficaz para resolver as controvérsias entre os membros; e é necessário "vontade política", com liderança e propostas claras em cada etapa da integração. Isso se aplica à UE, aos andinos, e, lógico, ao próprio Mercosul.

A necessidade de mostrar à população os ganhos com a integração é especialmente desafiadora para países como o Brasil, como lembra o diretor da Cepal no país, Renato Baumann. Os negócios com os sócios do Mercosul representam 10% do Produto Interno Bruto brasileiro. "Fica difícil convencer os outros 90% do PIB a fazer concessões para garantir uma associação que beneficia 10%", comenta o economista, que, no entanto, vê vantagens "geopolíticas" na atuação conjunta do Mercosul.

Uma outra conclusão do seminário tem tudo a ver com a discussão que o governo argentino quer promover na reunião presidencial do Mercosul, em Ouro Preto, em dezembro. Trata-se da idéia de que os problemas do bloco podem ser resolvidos com maior supra-nacionalidade, mais instituições e regras que limitem as políticas nacionais dos quatro países que constituem o grupo - os problemas entre os quatro sócios se resolvem com "mais Mercosul".


Há vantagens "geopolíticas" na atuação conjunta



O governo argentino e especialistas também do Brasil defendem que, a exemplo do recém-criado tribunal de revisão do Mercosul, se acelere a criação de instituições supra-nacionais, como se pretende fazer com o Parlamento do Mercosul. A Argentina vai além, como defendeu o ministro da Economia, Roberto Lavagna, ao propor um "código de conduta" para multinacionais para evitar transferências de indústrias entre os países. A idéia, na prática, tenta adaptar aos tempos modernos a frustrada experiência da Comunidade Andina, que, no passado, determinava em que país do bloco se instalariam fábricas de determinado produto industrial. Nem toda a boa vontade do Itamaraty com a Argentina em crise garantiu no governo brasileiro qualquer simpatia a essa proposta, um dos extremos a que podem chegar as idéias de supra-nacionalidade.

O seminário da Cepal e da Embaixada britânica, com base nas experiências européia e andina, concluiu que não há relação direta entre supra-nacionalidade e compromisso com a integração. Em alguns países, a Constituição determina que as regras comunitárias são automaticamente transformadas em legislação interna, mas, mesmo assim, há constante descumprimento de determinações. Outros países só adotam regras comunitárias após aprovação de seus Congressos, mas, como na Inglaterra, cumprem as determinações com empenho jesuítico.

A experiência européia, principalmente, mostra que deve existir flexibilidade na elaboração das regras comuns. Além das resoluções, decisões obrigatórias a todos os países-membros, o modelo da UE prevê a figura das "diretrizes" da Comissão Européia, normas gerais que cada país adota seguindo critérios que considerar mais adequados às condições nacionais. Para isso, os europeus abandonaram a pretensão de unificar regras entre si, e passaram a adotar o "reconhecimento mútuo" de padrões e normas nacionais, a partir de regras mínimas para todos. "Foi uma grande e positiva ruptura para a Europa", lembra o embaixador britânico no Brasil, Peter Collecott. Com base na história européia, os especialistas defendem também que não vale à pena tentar incorporar normas e leis com forte potencial de rejeição por parte de determinado país, e que é fundamental garantir a participação da sociedade civil na elaboração das normas, para garantir apoio à integração.

Apesar da constatação dos especialistas de que a UE tem reduzido cada vez mais o poder da comissão que deveria funcionar como todo-poderoso órgão executivo, não há dúvidas dos benefícios das instituições supra-nacionais, na fiscalização dos integrantes da entidade comunitária e como fator de estabilidade de regras e de decisões coletivas de longo prazo, menos sujeitas a considerações eleitorais do momento.

O Mercosul é vantajoso para o Brasil, também como fator de estabilidade de regras, pelo peso que acrescenta ao país nas negociações internacionais, pelo estímulo a certos setores ao comércio regional e pela influência positiva nos países vizinhos, como o Paraguai, potencial gerador de problemas (com tráfico, contrabando, migração). Mas seminários como o da semana passada mostram que, antes de partir para criar instituições e regras obrigatórias no bloco, é preciso decidir aonde se quer chegar e identificar claramente benefícios e custos. A dois meses da reunião de Ouro Preto, esse trabalho mal começou a ser feito.



Sergio Leo | :(0)



25/10/2004 13:22
O sexo dos micróbios
Essa palavrinha no título chama mesmo a atenção, né? O Globo é insuperável nas metáforas e referências ao assunto em manchetes, como no título, na semana passada, sobre os 50 anos da morte de Oswald de Andrade. Ao falar do sucesso internacional do autor da frase "a massa ainda comerá do biscoito fino que fabrico", o Segundo Caderno resumiu: "O mundo come Oswald". O grande Mário de Andrade deve ter morrido de novo, de inveja.


Não supera aquela matéria, há alguns meses, sobre o sujeito que foi participar de um menage a trois, acabou alcoolizado e foi atacado pelo amigo que o havia convidado, confirmando na prática o ditado de que bêbado perde o direito de propriedade a seus próprios orifícios. O sujeito entrou na Justiça e perdeu a causa, com uma sentença histórica do juiz de Goiás, para quem o participante de um "contubérnio" desses deve estar preparado para o que lhe vier pela frente _ ou por trás. Título do Globo: "Orgia tem regra: ninguém é de ninguém".





Mas o tema também inspira manchetes singelas, poéticas, até, como fez um gênio desconhecido da Folha de São Paulo, em uma matéria do caderno de ciência, sobre a reprodução assexuada dos organismos unicelulares _ que como todos bem se lembram, se reproduzem por cissiparidade, dividindo-se ao meio, repetidamente. Para apresentar a história sobre a ausência de machos ou fêmeas entre as bactérias, o editor da Folha tascou na página: "Micróbio não tem pai nem mãe". Nunca a Folha despertou tanta compaixão pelos nossos irmãozinhos microscópicos.



Sergio Leo | :(0)



25/10/2004 13:32
Jogo da Amarelinha
No fim de semana, fomos, eu e Marta, para um bar novo aqui em Brasília, chamado Rayuela, Jogo da Amarelinha em espanhol e nome de um livro do Júlio Cortazar. É bar e livraria, uma livraria como não há em Brasília, com dono que lê e entende de livros, e um acervo daqueles que dá para esticar a mão e pegar qualquer livro, de olhos fechados. Foi numa dessas que conheci (literariamente) a Adriana Falcão. Retrato genial da classe média contemporânea, com seu desconforto no mundo, suas hesitações e sua poesia.

Fim de um dos contos da Adriana:

"Depois de tudo (juntos, ou separados): tirando os problemas todos, até que foi bom, foi ruim, foi médio, foi engraçado, meio triste, uma desgraça! foi impossível, tá certo, foi chatíssimo, foi péssimo, inclusive também foi muito divertido eu diria até que foi ótimo, excelente mesmo, foi perfeito, não foi?

E, além de tudo, ainda teve cada beijo!"
Sergio Leo | :(0)



21/10/2004 21:53
O fim do quinta coluna
O ritmo na redação conspira contra esse blog, mas prometo a vocês, meus oito leitores, não abandoná-lo. Enquanto fecha a edição desta quinta-feira, já começo a preparar a coluna da semana que vem. Na cabeça, a constatação do filósofo Nélson Torreão, sobre a transferência do dia de publicação da coluna, de quinta-feira para a segunda-feira: passei, de colunista de quinta, para colunista de segunda.

Me garantiram que isso foi uma promoção. Eu acredito piamente.



O ritmo da redação também tem me impedido de ver o Torreão, que, caso contrário, freqüentaria esse blog mais amiúde. Seu senso de observação me fez notar uma vez, à porta da sala de imprensa do Ministério da Fazenda: "já reparou, Sergio leo, à medida em que envelhecemos, vamos ficando com cabelos brancos e elas vão ficando ruivas?".

Não tenho mais visto tantas ruivas como antigamente nas salas de imprensa. Talvez seja o ingresso de mais gente nova na profissão; talvez elas só tenham mudado de tintura.


Sergio Leo | :(1)



21/10/2004 22:11
A morte da bezerra
Quase entrevistei alguém da Embrapa, quando morreu a filhote da vaca clonada, a Vitória, só para fazer uma nota com esse título aí em cima. Passou a oportunidade, vejo hoje no Estadão, a foto, em posição desabonadora, da pobre vaca Asteca, reprodutora que valia R$ 2,4 milhões e foi eletrocutada por um poste que caiu. Na foto, vê-se que Asteca não fritou sozinha, uma outra, a Sagras Fort VG também morreu, coitada. Os outros jornais nem deram bola para ela, valia só R$ 100 mil. Mais que todos os veículos da minha casa, incluindo os dois carros, bicicletas, patinete, patins e sapatos.
O destino de Sagras me fez lembrar a paúra que tenho em minhas viagens de avião, quando vejo, no mesmo vôo, algum ministro, parlamentar importante ou outra celebridade. Se o avião cai, penso eu, a atenção dos jornais irá toda para o morto ilustre, e eu, como a pobre Sagras, provavelmente não teria direito nem à nota funérea com fotinho com que os jornais costumam brindar os companheiros defuntos da profissão. Lá iria a última oportunidade de surpreender amigos e inimigos com minha aparição na imprensa. Troço chato, ser coadjuvante na morte dos outros.
Sergio Leo | :(2)



18/10/2004 13:23
Onde tiram pedras do caminho
O falecido Paulo Francis ironizava a crença brasileira de que é a Casa Branca o endereço para resolver problemas com o governo americano. O Congresso, lembrava ele, é o caminho das pedras, onde se põem e se retiram obstáculos aos interesses empresariais nos Estados Unidos. Governo e setor privado, no Brasil, parecem ter acordado para a lição já escrita há tempos pelo polêmico escritor e correspondente em Nova York. O novo embaixador brasileiro nos EUA, Roberto Abdenur, e o presidente do Conselho da Câmara Americana do Comércio, Sérgio Haberfeld, vêm, independentemente, percorrendo os corredores da Colina do Capitólio, o prédio do Legislativo americano. Com ou sem George Bush, o futuro do Brasil passa também por lá.

Como mostra a queda do Brasil nos indicadores de competitividade e de preferência dos investidores, divulgados na semana passada pelo Fórum Econômico Mundial e pela consultoria A.T. Kearney, ainda é grande, porém, o trabalho a ser feito no Brasil antes de lamentarmos as barreiras de acesso ao mercado americano. As recentes medidas anunciadas pelo governo, de modernização de portos e desburocratização de embarques, se levadas à frente, podem dar um impulso ainda difícil de medir ao desempenho exportador brasileiro para os EUA.

Pragmático e objetivo, o embaixador Abdenur endossa críticas feitas por seu antecessor, Rubens Barbosa, contra a timidez do Brasil na exploração do gigantesco e, em grande parte, escancarado mercado americano. Ele conta que, em reunião recente em Miami, de três horas, com empresários do Grupo Brasil, de importadores de produtos brasileiros ou empresários do Brasil com interesses nos EUA, não ouviu "uma única queixa" contra o protecionismo americano. "Todas as preocupações e reclamações eram sobre o Brasil, nossa retaguarda, funcionamento dos portos, burocracia, estrangulamento no sistema de transportes, exageros fiscais e burocráticos", lembra ele. Um exportador de móveis se queixou da falta de contêineres, que o impediu de embarcar suas encomendas, sob risco de perder clientes locais.

É de se esperar que as medidas de remoção de gargalos à infra-estrutura de exportação prometidas pelo governo façam efeito antes da temida desaceleração da economia mundial. Enquanto isso, é discreto, ainda, o esforço para desbloquear caminhos no mercado americano com conversas no Congresso dos EUA. Abdenur tentou marcar um encontro entre o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, e o maior líder protecionista no Congresso, o presidente da Comissão de Finanças do Senado (que também trata de comércio), Bill Grassley. O senador estava fora da cidade, mas garantiu a Abdenur que ouvirá os brasileiros.

Como o embaixador, que diz ter a ação no Congresso entre suas prioridades, Sérgio Haberfeld traçou uma estratégia de lobby no legislativo americano, espelhando-se na bem-sucedida iniciativa dos empresários mexicanos quando foi aprovado o Nafta, o acordo de livre comércio da América do Norte.

Também com pragmatismo, Haberfeld comenta que não é fácil, nem rápida, a remoção de obstáculos para os exportadores, como os impostos excessivos e problemas logísticos que ganharam destaque com o crescimento das vendas externas. Ele vê setores, como o de móveis, o de calçados e o de aparelhos sanitários, que têm competitividade e poderiam aumentar exponencialmente suas vendas aos EUA, com algum esforço próprio. Paralelamente, diz ele, é preciso mapear os interesses paroquiais que influem na distribuição de forças no Congresso americano e trabalhar com eles. O tipo de eleição nos EUA, decidida nos distritos eleitorais, faz com que interesses localizados movam o legislativo e criem coalizões muitas vezes difíceis de entender para quem não conhece as bases de votação dos parlamentares. "É uma troca de favores; podemos obter apoio para importação de certo produto negociando o uso de determinado porto local", exemplifica o empresário.

Haberfeld já irritou associações empresariais dos próprios Estados Unidos pela iniciativa de atrair grandes empresas consumidoras de açúcar, como a Coca-Cola, para ajudar no lobby contra as barreiras locais ao produto brasileiro. Ele lembra que as leis ambientais da Califórnia devem tornar o Estado um dos maiores consumidores de álcool combustível em quatro anos, e pode ser possível, lá, negociar antecipadamente o atendimento de interesses localizados, para evitar que a defesa dos produtores de álcool do Centro-Oeste americano crie obstáculos ao etanol brasileiro.

Haberfeld pretende fazer pelo menos três grandes reuniões com parlamentares americanos no próximo ano, depois de assentado o cenário pós-eleitoral nos EUA. Ele não esconde que seu objetivo final é abrir caminho para a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), negociação que ele considera a única capaz de motivar os europeus a fazer avançar acordo similar entre União Européia e Mercosul.

Esse trabalho, logicamente, não elimina a necessidade de melhorar a infra-estrutura exportadora. Recém-saído da reunião entre grandes empresários brasileiros e argentinos que criou, sob as bençãos dos governos dos dois países, uma Coalizão Empresarial binacional para remover obstáculos entre os dois sócios do Mercosul, Haberfeld comenta que problemas logísticos, burocracia na alfândega e impostos distorcivos também afetam o comércio ao Sul.

O caminho, como descobriu ele próprio com as duas fábricas (de potes para margarina e iogurte e de copos e plástico) da Dixie Toga em território argentino, é aumentar a integração industrial entre os dois países. Não é à toa que o Brasil, ao aceitar cotas para exportação de geladeiras para a Argentina, perdeu - um pequeno - espaço para Chile e México no mercado local. Mexicanos e chilenos abriram fábricas na Argentina, e complementam com importações sua produção local. Como já fez várias vezes, aliás, sem queixas de argentinos, a própria Dixie Toga, que acaba de ter seu melhor resultado no país, em anos.


Sergio Leo | :(1)



15/10/2004 21:17
Vida de Cachorro
Somos os cachorros que, enquanto a caravana passa, ladram para contar à patuléia o que acontece. Temos nossas memórias de cachorro, à margem da história, e nossos afetos de cachorro, aqueles sem olfato para os acontecimentos realmente importantes à humanidade.





A propósito da exumação do nome de Zélia com a morte do magnífico Fernando Sabino (pobre defunto, já apareceram os vampiros do brilho alheio, sedentos de notoriedade pela polêmica, tentando diminuir o valor de suas crônicas geniais) minha memória canina me faz lembrar do dia em que Fernando Collor foi, pela primeira vez como presidente, a Nova York. Cadão, fotógrafo do Estadão, largo como indica o nome, alugou uma bicicleta, já prevendo que o presidente maníaco não resistiria à oportunidade de fazer jogging no Central Park, em frente ao Hotel Plaza onde estava hospedado. Eu, convalescendoi de uma hepatite, aluguei uma também.





Logo, todos os fotógrafos aboletavam-se em bicicletas alugadas, e o pessoal de TV (na época equipes de três: cinegrafista, operador de VT e iluminador, o pau-de-luz), alugava carruagens, daquelas para turistas. Mário Rosa, do JB, era o único de terno, e isso não o impediu de correr atrás do presidente, que arrancou parque adentro seguido por seguranças, bicicletas, carruagens, o escambau. Ao ver o circo que passava atrás do Collor, uma americana, impressionada, só conseguia perguntar: who is him? who is him? (quem é ele?).





Em um esforço literal de salvamento da pátria, quem respondeu a ela foi o Lucas Mendes, que não quis comprometer a imagem global correndo atrás da palhaçada collorida: "He is the president of Argentina!"











Afeto de cachorro, que não compara a política externa de um presidente ou outro: me incomoda o ar assustado com que o Lula passa em revista as tropas nos países que visita e o nervosismo da entourage do presidente, em pânico ante a aproximação de jornalistas brasileiros. Me incomodou a conclusão papagueada por ele,de que o Brasil não cultua seus heróis porque não temos o hábito dos outros países latino-americanos de obrigar presidentes visitantes a depositar flores em algum panteão patriótico.





Sinto saudades da diversão nas viagens do FHC, que também se deslumbrava com primeiromundices como o Tony Blair manuseando mapas no tapete da casa de campo de Bill Clinto. Mas sabia fazer humor consigo mesmo: numa conferência da ONU, abordado pela RAI, desandou a responder em um patuá arrevesado, em que misturava "Bisogna cedere" com outras expressões em italiano, latim e portunhol, no melhor estilo Juó bananere. De saída, indiferente às expressões de perplexidade da equipe de TV, vira-se para a assessora Ana Tavares e, com um risinho orgulhoso, comenta: "agora estou dando entrevista até em italiano!".
Sergio Leo | :(3)



15/10/2004 15:52
Sorrisos para o fim de semanaDiz a Artnews (ou será a Art in America?) que o sorriso da Monalisa, além de estar amarelando com o tempo, corre um sério risco, para angústia dos restauradores do Louvre: a tábua onde da Vinci pintou a moça está empenando, e mais de um lado que do outro. Resultado de restauração mal feita há alguns séculos, quando puseram uma cunha em uma das rachaduras da prancha onde sorri a Gioconda, enigmática. Além de amarelo, o riso da musa pode ficar torto, algo bem de acordo com os tempos perversos que vivemos.





A alguns bons metros de onde a Monalisa se protege, atrás de vidro blindado, das saraivadas dos flashes dos milhares de japoneses que se acotovelam com outros turistas à frente dela, há uma outra obra-prima do da Vinci, Sant´Anna com a Madona e Cristo menino, praticamente ignorada pela horda que segue a fila montada no corredor para a peregrinação à Monalisa. O quadro, belíssimo, em que Nossa Senhora também mostra um sorriso enigmático, à Gioconda, não foi usado em imãs de geladeira, canecas e quiniquilharias, como sua irmã mais famosa. Mas merecia tanta fama quanto. À Monalisa cabe a primacia do sorriso intrigante; mas o trio divino com Sant´Anna à frente (atrás, para ser preciso) mereceu uma fascinante análise do Sigmund Freud, mais fascinante que o já gasto _ e agora amarelo e torto _ risinho arquetípico da arte ocidental. O quadro é citado por Freud em sua tese de que Da Vinci era viado enrustido. Digo, homossexual avesso ou infenso à pratica carnal. Hoje, que isso já não compromete a honra de ninguém, deveria motivar algum texto no Louvre para que as pessoas conhecessem a intrigante tese do Sigmund, e se detivessem á frente do quadro (enquanto a Monalisa, ao que parece, deverá passar por um ortodontista da casa).





Um dia eu resumo esse Freud aqui.

Sergio Leo | :(0)



14/10/2004 11:30
A Guerra da Arte




Em "Mulher com Brinco de Pérolas", o filme sobre o pintor holandês Veermer baseado no livro do mesmo nome, uma das cenas mais deliciosas é aquela em que o pintor, acompanhado da empregada e ajudante (a mulher/moça do brinco, do título) prepara as tintas, cercado por vidros e potes com óleos e pós diversos, uma tremenda alquimia do tempo em que não havia tinta em tubinhos. Os pintores, na Idade Média, pertenciam aos grêmios dos Médicos e Boticários _ tiveram um trabalhão intelectual para defender sua posição especial na sociedade do Quatroccento, dissociar-se dos artesãos e mostrar que sua técnica era um veículo para expressão de idéias elevadas, o que os alçava à mesma condição dos poetas e filósofos. De quebra, com isso, passaram a pagar menos imposto, pesado para os artesãos.







Penso nisso quando vejo as reportagens cheias de perplexidade sobre a Bienal de S. Paulo e suas obras incmpreensíveis/incompreendidas. A Fayga Ostrower, doce de artista e professora, metia o pau em grande parte do que aparece nessas Bienais, fraudes, segundo dizia. Mas ela não rejeitava toda arte conceitual; é uma saída fácil rejeitar o que não se entende, ou o que nos choca a primeira vista. Como os renascentistas valorizaram o que faziam mostrando que uma Idéia ordenava e legitimava o que a técnica permitia fazer, os artistas conceituais bradam, agora, a subordinação total (quando não a irrelevância) da técnica à idéia, ao processo de investigação que, segundo defendem, constitui a obra de arte. É o fazer do artista, não o produto final visto, o que mais importa; o que deve ser admirado, percebido, discutido, é o jeito particular, único, que o artista mostra de lidar com a realidade, com o que o cerca, com o que está à nossa volta. Algumas vezes, essa empreitada vira uma enorme maçonaria, aberta só aos sacerdotes da seita; outras vezes é bem sucedida e leva as pessoas a perceberem coisas, idéias, questões que nunca haviam notado. Pode servir para esconder fraudes, pode só repelir as pessoas. Pode até ficar bonitinho.






Ainda volto ao assunto.

Sergio Leo | :(0)



14/10/2004 12:15
Tango, essa coisa moderna
Digo para minhas fontes que jornalista não deve ter vergonha de ser proxeneta de idéia alheia, do brilho dos conhecidos. Acho que isso se aplica também a blog; pelo menos justifica eu transformar o Kid de leitor em colaborador, sem consulta prévia. Segue o texto que ele me mandou por emaíu (a propósito, se quer irritar um uruguaio, diga que o tango é argentino):







CONSTRANGIMENTO DE PÚBLICO







Estávamos em Montevidéu, na delegação brasileira a um congresso da Associação de Câmaras Americanas de Comércio na América Latina. De volta de um jantar — último evento da programação daquela sexta-feira — formamos uma rodinha de brasileiros, junto ao balcão da recepção, aguardando nossas chaves. Eu exibia meus conhecimentos (falsa cultura) de música popular:



- Não sei se vocês sabem, mas o tango mais conhecido no mundo, o "La Cumparsita", foi composto por um uruguaio, Matos Rodríguez.



- Desculpe senhor, mas não pude deixar de ouvir, disse o funcionário de serviço na portaria, um senhor de seus sessenta anos. "Montevidéu também é terra de tangos, embora a fama seja somente argentina. Agradeço-lhe pelo amável comentário".



- Ora, de nada. A propósito, existe alguma casa noturna onde se possa ouvir uns tangos, a essa hora?



Ele sacou um cartão da gaveta e nos passou. Saímos os quatro, Mirthô, Lysette, Diniz e eu. O motorista do táxi nos deixou na porta. Uma pequena tabuleta com o nome do estabelecimento indicava que serviam churrascos. Ninguém na entrada. Penetramos. No salão havia uma boa quantidade de mesas, envolvendo um palco onde se via um piano, contra-baixo, bateria, outros instrumentos e, em posição de destaque à boca do palco, o bandoneón. Foi fácil escolher a mesa, pois estavam todas vazias. Sentamo-nos. Não se ouvia um ruído. Nem música de fundo. Eram 23 horas, véspera de sábado. Portanto, não era possível que o espetáculo já tivesse terminado.



Impaciente, Diniz levantou-se e partiu para os fundos do salão, à procura de alguém. Saiu de lá um garçom que veio com ele em nossa direção. Recusamos a carne oferecida, mas pedimos uma garrafa de vinho. Explicamos que havíamos jantado e só viéramos para escutar tangos.



Quando voltou com os copos e o vinho, perguntamos se ia demorar muito a começar o show. "Não senhor, começa ahorita", disse ele voltando para os fundos. Alguns minutos depois, surgem de lá os músicos, todos em traje a rigor, que se dirigem em silêncio para o palco. Em silêncio e vagarosamente, eis que o mais jovem deles aparenta uns oitenta anos.



Tomam seus lugares. O bandoneonista, e líder do grupo, faz um discreto aceno nos cumprimentando e dá a partida no primeiro número. Sem esperar pelos nossos aplausos emendam um segundo, terceiro, e outros tangos, todos clássicos e muito bem executados. Na primeira pausa que fazem, quatro pares de mãos aplaudem vigorosamente. Não resisto e faço um pedido, prontamente atendido.



O garçom traz mais vinho. Afinal, além da orquestra só para nós, tínhamos também um garçom exclusivo. Daí a pouco o band-leader anuncia que farão um pequeno intervalo. Maldosamente Diniz comenta em voz baixa: "certamente está na hora deles tomarem o remedinho para a pressão". Lastimamos que não tivéssemos aliciado delegados de outros países. Era uma pena, um grupo de tão boa qualidade, tocando para uma platéia de apenas quatro pessoas.



As mulheres — talvez preocupadas com a terceira garrafa encomendada — pretextam cansaço e sugerem voltarmos ao hotel. A programação do sábado começaria cedo com uma vigem a Punta.



- De jeito algum! retrucamos. O público não pode sair todo de uma vez. Vai parecer que não estamos gostando. Seria uma grosseria. Vamos que um deles, ofendido, tenha um enfarte. Nem pensar.



Vem a segunda parte. Tão boa quanto a primeira. A seleção é tão maravilhosa que não faço qualquer outro pedido. Ao fim de mais uma milonga, o líder pega o microfone, varre lentamente a sala com o olhar e pergunta:



- Se algum dos presentes tiver uma preferência, é só pedir.



O constrangimento pela ausência de público, que já havia se dissipado, instala-se novamente. Maldosamente fico em silêncio. Diniz me chuta por baixo da mesa e insiste:



- Não faça isso! pede alguma coisa ou me sopra um título, pô". Corto o silêncio constrangedor:



- Ainda não ouvimos "o" tango, do uruguaio Geraldo Hernán Helvecio Matos Rodríguez.



A casa se inunda de "La Cumparsita". Toda a platéia confirmará o que digo: havia um brilho de lágrimas contidas nos olhos dos velhinhos. Nos nossos também, ora.










Luiz A. Q. Mattoso


Sergio Leo | :(2)



13/10/2004 15:27
filosofia de plantão
Vinícius Dória conta que ficou um tempão explicando aos filhos que os orelhões já funcionaram a ficha; e descobri que agora todos são à base do cartão. "Caiu a ficha" é mais uma expressão de significado engolido pelo tempo, como "agora, Inês é morta", ou "aí são outros 500".

Sobre a defunta Inês posso voltar a falar mais tarde; é história, para quem conhece História, e fascinante. Mas a extinção dos orelhões de ficha me lembra como, aos poucos, desaparece não só parte do mundo que conhecemos como cheiros e sabores que nos acompanharam por quase toda a vida. Quem já comeu o verdadeiro Diamante Negro (o chocolate, não o pobre Leônidas da Silva, que era espada) sabe como é nojento esse troço açucarado que vendem hoje em seu nome. Foram minhas papilas gustativas que mudaram ou também adulteraram a fórmula do Ovomaltine? O Sustagen, esse não me engana, foi trocado por algum (mal-)preparado transgênico. E procuro até hoje algum estoque perdido de desodorante English Lavender, da Atkinsons, para recuperar minha identidade aromática...
Sergio Leo | :(3)

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